terça-feira, 25 de outubro de 2016

Há uma altura em que podemos dizer nunca e sempre

Olá a todos!

Estamos numa altura do ano que, geralmente, é muito dura para quem já viu partir pessoas que ama. A luminosidade diminui, o ar está sempre molhado, a alma fica um pouco mais pesada. Novembro irrompe de imediato ao dia 1, como uma chapada intensa bem no centro da nossa realidade. Sejamos ou não religiosos, existe um ritual que, inevitavelmente, assistimos repetido pelas ruas, através do qual somos remetidos para a perda. 


Podemos gerir esta dor do luto de forma construtiva? Sim, nós perdemos, porque ganhamos.

Então vejamos como. 

Nick Cave, a propósito da esmagadora perda do filho, refere que o tempo é elástico. Afirma que conseguimos afastar-nos do evento mas que, a dada altura, o elástico irá rebentar e trazer-nos sempre de volta ao mesmo. Concordo em absoluto com esta perspectiva. É isto que se sente.

Quando morre alguém que amamos,
a vida não para. A vida pode empobrecer, pode perder a cor, pode perder a luz, mas seguirá, um dia atrás do outro, por mais abusivo, injusto ou violento que isso possa parecer-nos. E nós, a contra-gosto, lá vamos seguindo. Recolhendo os pedaços que sobram de nós, por vezes poucos e demasiado invisíveis, mas lá nos vamos reunindo, colando e costurando motivação, vontade, coragem, sorrisos... E, um dia, até estamos a sentir-nos um pouco melhores, com o coração mais em paz. E, no dia seguinte, até retiramos algum prazer do cheiro do ar, do som do mar... As coisas começam a fazer sentido e a encaixar-se num frágil equilíbrio! E eis que, num baque, cai-nos uma saudade avassaladora no colo, num vórtice repentino e peganhento. Tudo volta atrás. E, como já sabemos, tudo voltará à frente. Porque a vida é movimento. Material e emocional. E nós somos a união de todos os minutos dos nossos dias, resultado das experiências e da forma como as apreendemos. O que digo sempre, seja em relação, individualmente ou no quotidiano, importa que o saldo seja positivo. Se não é, urge trabalharmos para isso.

Quando sei que alguém está em luto, há duas coisas essenciais que faço:
  • Ouvir, respeitando o que a pessoa está a partilhar (palavras, dor, choro, silêncio...) 
  • Verbalizar que, para mim, as saudades traduzem o amor que caracteriza a relação que tivemos com essa pessoa. 
Sem dúvida, a perda surge contagiada de dor, de lágrimas, de angústia e de desespero. Um pequeno grande preço a pagar pelo privilégio de podermos ter participado na vida daquela pessoa que já não está, mas que nunca vai deixar de estar. As pessoas ficam connosco, sim acredito nisto. Ficam pelos feitos concretizados, claro, mas, acima de tudo, ficam pelo impacto que deixam junto de todos aqueles com quem conviveram, riram, entristeceram, brincaram, amaram, magoaram, construíram e todos os verbos que apenas uma vida inteira poderá completar. Mesmo sem querer, ou saber, ensinam-nos novas formas de viver.


Não sou muito lamechas. Não sou muito dada à saudade. Não sou muito de extravasar emoções. Com isto não quer dizer que não aprecie um grande momento de mimo exuberante a demonstrar que se sente falta. No entanto, será normal que eu esteja a assistir (e talvez valorizar) e não propriamente a protagonizar. Todas estas constatações derivam de características pessoais e profissionais que me foram completando ao longo de mais de três décadas (ficamos assim). Sou sensível, sou empática, sou emotiva. Simplesmente, evito partilhar isso. Abro uma excepção (sempre) quando observo uma situação em que a minha vulnerabilidade pode ser interpretada como uma via rápida para que a outra pessoa se sinta identificada, aliviada e partilhe. Então, fragilizemos em conjunto, com a esperança que isso seja produtivo, mesmo que seja apenas um bocadinho. Sempre será um pouco menos de peso.

Escrever sobre a perda é algo que me é muito doloroso. Ao longo da vida tive o privilégio de ter a família humana quase completa (da peluda foi mais difícil, naturalmente). No entanto, e por amar e ser consciente, vivi com esse receio a pairar sobre a minha cabeça inquieta. Recentemente, perdi uma parte significativa de mim, vários elementos de família. Sem discriminar, porque o amor não se mede, posso afirmar que todos os lutos doeram demais, mais ainda do que pensei. Não obstante, vou focar-me num caso muito particular. Onde uma pessoa foi vilãmente rasgada para fora de mim... Essa era a sensação, estava vazia. Andei assim durante muito tempo. Com aquela sensação de que já está, nada feito, terminou. Passado, mais ou menos, um ano, em jeito de não saber que mais fazer porque nada seria útil, escrevi uma carta a essa pessoa. E partilhei-a apenas com duas pessoas, para averiguar se seria uma mais valia expor aqui aquela dor tão pornograficamente explícita. A única sugestão, acompanhada de um embargo emocional, foi que não poderia colocar aqui aquele nível de desesperança. Eram palavras de impacto, de partilha, de identificação, mas que pareciam desembocar em desespero. Pensei sobre isso e voltei a pensar. Como realmente não conseguia encontrar uma forma de dar uma tónica positiva ao que sentia, arrumei as palavras amarguradas pela perda e decidi avançar. Até agora. 

A verdade é que escrever aquela carta trouxe-me algo de positivo, que agora posso repartir. A carta tem nome, "Há uma altura em que podemos dizer nunca e sempre" e é dirigida, de forma muito clara, à minha pessoa que deixou de ser capaz de receber os meus abraços. Sou apologista de escrever para organizar a mente. Existem inúmeros benefícios associados a este acto, sobre os quais nos debruçaremos noutra ocasião. Aqui importa dizer que eu tinha consciência que aquela carta não seria lida. Portanto, foi dirigida a uma pessoa mas com um motivo ulterior de chegar a outra. Opto por não partilhar aqui a carta, pelo menos por enquanto. Vou apenas deixar três trechos, para que se perceba o meu propósito. 


A dada altura escrevo:
"Tudo, mesmo tudo, que se passou entretanto, foi pautado por um nevoeiro apático onde “tanto faz”. Sinto-me órfã de mimo, de carinho, de amor, de ti. Continuo a ter pessoas que se preocupam comigo e que me amam. Continuo a ter os nossos, que ainda o são. Mas estou às escuras, faltas-me tu, a luz da minha vida."

E sim, é verdade. Continuo às escuras. Mas já sou capaz de descobrir onde há luz. Confesso que nem todos os dias são dias de lá ir, mas começa a haver outros que são.

Continuo:
"No dia em que te vi e já não estavas a morar no teu corpo, fui arrancada de um estado morno de existência para a maior violência imaginável. Eu sei que estas coisas são duras, sabia que ia ser horrível. Mas foi impossível. Foi a única coisa irrealizável que realizei."

Novamente, ainda é verdade. Mas hoje sei, se fiz aquilo, farei muito mais.

Termino:
"Foste embora e eu fiquei. E hoje a minha vida é cheia de dias vazios. Eu rio-me, brinco, leio, namoro, passeio,… Vivo porque sempre me disseste que era muito importante “fazer enquanto se pode”. E eu vivo, por mim, por ti. Mas vivo desprovida de ti. E, assim, só sei viver pela metade porque todos os dias me faltas tu, por inteiro. Portanto, bem vês que podemos dizer nunca e sempre. Sempre, em todo e qualquer bocadinho do dia e da noite, te amei com o coração todo. Nunca mais posso agarrar-te junto a mim. Nunca imaginei a minha vida sem ti, vou sempre sentir demais a tua falta."

E aqui percebe-se que toda a carta (que é insuficientemente longa...) não me trouxe luz. Com o tempo reparei: trouxe-me ordem. Organização afectiva, auxiliou-me a compreender o que sinto, logo, a perceber como agir. Acima de tudo, levou-me a aceitar a realidade e como isso estava muito em falta. Este desespero por não ter, de forma incontornável, quem queremos, perto de nós, é intenso, presente, contínuo. Sim, é-o. E não faz mal. Não faz mesmo, porque é natural sentir isto. A partir daqui, sou responsável por alimentar, ou não, a forma como me sinto, diariamente. 


Ora bem, vamos lá tentar escrever a moral, que me foi tão bem sugerida:
  • O tempo não cura, mas traz perspectiva. Quando estamos agonizados em dor emocional não conseguimos ver futuro... O tempo permite-nos alguma distância para reflexão e para encaixar tudo de outras formas. É útil.
  • Quando quem amamos morre, ficamos em sofrimento. Isso é normal, natural, compreensível. Punirmo-nos por sentir, é algo que tem tanto de injusto, como de inútil. É fulcral aceitar que, com a perda, vem a dor. Se nos sentimos desesperançados, não precisamos de nos deixar envolver por esse sentimento, mas é muito relevante que nos permitamos senti-lo. Sem julgamentos, pressas ou recusas.
  • Aqui entra a arrumação das emoções. Escrever permitiu-me compreender que estava de rastos, por mais que o quotidiano fosse, aparentemente, o normal. Escrever permitiu-me admitir que ia sentir esta falta avassaladora para sempre. Escrever permitiu-me ainda perceber que isso era aceitável porque eu podia sentir mais coisas, além disso. E, desta forma, não podemos negar que somos muito do conjunto de tudo na nossa vida. E que, para estarmos em paz, importa respirar com gosto, ir editando, reconstruíndo e adicionar ingredientes com valor (e sabor!) aos nossos dias. 

Infelizmente, perdi uma parte significativa da minha vida. 
Felizmente, sofro porque me corrompeu com muito amor e excelentes influências.

Aceito isto, respeito-me, respeito quem perdi e avanço. Tal como essa pessoa, um dia, avançou quando perdeu partes significativas na sua própria vida e, ainda assim e porque escolheu viver, foi capaz de me acolher, ensinar e ajudar a moldar. A vida é movimento, já falámos. Portanto, podemos até sentar-nos, mas isso significa que a nossa acção seja estar parados. Isso traz consequências de igual forma, nomeadamente das que não controlamos. 

A melhor homenagem que podemos fazer em dias difíceis, é escolher, activamente, como queremos avançar e seguir. Sós, acompanhados, mas juntos. Sempre juntos e em frente. Avanço e levo-te comigo.


"Time is elastic. We can go away from the event but at some point the elastic snaps and we always come back to it"
Nick Cave

2 comentários:

  1. Um texto intenso, carregado de emoções, escrito por uma Psicóloga altamente competente, e que para além das aptidões técnicas que possui é um ser humano extraordinário, com um enorme coração. Parabéns!

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    1. Andreia, fico repleta de gratidão e de carinho pelas amáveis palavras. Qualquer mérito da minha parte é sempre conjunto, edificado com trabalho de equipa. Tenho o privilégio de acompanhar inúmeros caminhos e rotas, muito variados e onde acumulo saberes muito ricos. É esta permissão tão especial que vai construindo estas partilhas. Obrigada e até breve!

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