quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Texto autocentrado, com pretensões de heteroreflexão!

Olá a todos!

Ponderei muito sobre partilhar este tema ou não. Porque este tema sou eu. No entanto, quando a informação que temos pode ser uma linha orientadora para convidar à reflexão, porque não? Somos feitos de limites e de barreiras, bem necessários e construtivos, mas importa que, dentro desses traços haja espaço para respeito, partilha, liberdade e amor. Tentarei escrever com esta máxima em mente porque tento viver assim desde que me lembro de ser gente (e a minha memória tem dias bons, como alguns de vocês saberão!).

Recentemente, fui obrigada a ausentar-me do trabalho clínico, durante mais de dois meses. Desde há  (bem...) mais de uma década que não me lembro de isto ocorrer. Mesmo durante o último ano de faculdade, já tinha iniciado consultas, acompanhadas, como uma estagiária bem-comportadinha, mas sempre com muito empenho. Desde aí até ao dia de hoje, que tenho muita dificuldade em pausar o trabalho. Como é que se pausa o acompanhamento a pessoas que nos entregam um pedacinho de si mesmas e o deixam a marinar dentro da nossa preocupação e afectos? Claramente, escapou-se-me isto durante o curso. Sou de
entrega, de empatia, de acompanhamento presente. E, nesses meandros, a afectividade vai tomando lugar e como os problemas da vida não param, é-me difícil afastar-me mais do que as tradicionais duas semanas de férias.

Neste seguimento, e após perceber que teria de ser submetida a uma cirurgia, lá impus as esperançosas duas semanas de férias para poder "tratar disto". Diz a ironia da vida (que na altura até tomou a forma do corpo profissional de saúde que me seguia) que nem tudo é como queremos e que devia esperar que assim fosse, no entanto, contando com o inesperado. Se não acreditam nisto espreitem lá aqui

E, naturalmente, que o universo achou que esta seria uma altura tão boa como outra qualquer para me dar uma lição de vida. Foi assim que duas semanas se transformaram em dois meses, e eu sem poder regressar ao trabalho. Foi um momento pessoal muito duro e difícil mas que culminou numa fase repleta de mimo e de afeição. Confesso que, por mais simpática que achasse que eu pudesse ser ou até mesmo a quem me rodeia, nunca seria capaz de compreender até que ponto seria inundada de carinho e de preocupação. Desta forma, este momento terrível converteu-se num momento em que me senti preenchida por uma imensa gratidão, a qual estou convencida que fez acelerar o próprio processo biológico de convalescença, só para poder afirmar que já estava tudo bem e que estava de volta, e, acima de tudo, para descansar estas pessoas maravilhosas que descobri que não existem só no cinema. 

Obrigada, com o coração todo.

Acontece que, no meio disto tudo, era Verão quando dei entrada no hospital. Estava calor, cheirava a quente, vestia-se roupinha fresca. Após esta fase, quando pude voltar a sair, arrepiei-me. Não de frio, que o estava, mas porque percebi.... que era quase Natal! Natal! Como é possível eu ter perdido um episódio da minha vida e, de repente, estar tudo decorado para a época natalícia? Isto levou-me a pensar muito sobre a perenidade e fragilidade de que padecemos, enquanto seres vivos. Numa das primeiras consultas que tive, mal regressei ao trabalho, ouvi alguém dizer que "estou a aguardar pela reforma para fazer essa viagem, podia ir agora mas um dia tenho mais tempo". E eu, sentadinha em frente, com aquele ar psic, pisquei os olhos, a absorver a realidade, sorri e só consegui dizer "Está à espera de quê?...", apontei para mim mesma e os risos tornaram-se óbvios. 

Ouvimos isto nos filmes, nos livros, nas bocas alheias, até o António Variações, do alto da sua sabedoria, nos alertou que "é para amanhã, bem podias fazer hoje". Contudo, desta vez aconteceu-me a mim. A mim e às pessoas que, mais ou menos junto a mim, perceberam que a vida é breve, fugaz e efémera. E quase que deixa de ser, só com um piscar de olhos. Este texto podia ser sobre procrastinação, uma vez que falamos de adiar. Na realidade não o é. Com esta partilha, sugiro que ponderem sobre aquelas vezes em que andam para escrever a alguém, ligar a não sei quem ou até mesmo ir tomar café com outrem. Alguém que gostem mesmo e com quem queiram estar, embora o tempo não vos permita. Quem diz isto, diz ir fazer aquele adiado workshop de culinária, ir visitar Óbidos ou experimentar o famoso restaurante novo. Tentem idealizar um exemplo específico que tenham pendente. Agora, pensem há quanto tempo andam a arrastar essa vontade. Quanta energia consumida ponderando em ir, fazer, ligar, comprar e quanta frustração em adiamentos e "noutra altura dará mais jeito". Ok, há coisas que serão mais convenientes noutros momentos, mas podemos confessar que outras, simplesmente, adiamos porque... sim! E porque não. E porque nada. 

Querem fazer algo, investir em alguém, cuidar de vocês? 
É capaz de ser boa ideia não deixar para amanhã!

Pode demorar demais e deixar de fazer sentido. Pode ser um amanhã demasiado longínquo ou inexistente. Querem fazer? Façam. Parece incrível, mas é realmente assim tão simples.


PS: Sim, eu sei que tenho pendente um texto sobre como trabalhar para ser mais feliz. Está no forno! Achei que esta partilha poderá agilizar a execução das sugestões que aí vêem, uma espécie de amuse-bouche para abrir apetites. 



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