terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Todo o tempo do mundo, para ti

Olá a todos!

Leio, frequentemente, o mesmo através de livros, artigos e qualquer linha que caia sobre o tema de ser feliz em casal: importa passar tempo de qualidade juntos. Contudo, andamos perdidos num quotidiano que mal nos deixa tempo para inspirar fundo e cheirar as flores, relaxar em frente a um filme interessante, fazer exercício físico, convidar amigos para jantar, levar os miúdos aquela actividade tão interessante, ufa... Na realidade, como é que vamos conseguir encaixar tempo para investir um no outro, conseguir o tal "tempo de qualidade"? Mesmo que se consiga, o que é que fazemos ao certo com ele? Tem de ser um super encontro semanal? Uma escapadinha romântica mensal? Ou um gesto arrebatador a cada trimestre? E a energia... o dinheiro... a motivação para embustes amorosos que, a sermos honestos, pouco acrescentam à relação, a longo prazo...

Na realidade, pode parecer que advogo contra esse mesmo tempo de qualidade contudo garanto que isso não é verdade.
Sou apologista de cuidarmos da relação com o outro, com o mesmo fervor que advogo que cuidemos de nós próprios. Digo, regularmente, que o "nós" conjugal apenas pode ser bom, caso os "eus" individuais consigam estar bem consigo mesmos, nas suas peles. Quanto mais rico e mais interessante for o nosso tempo individual, melhor será o que traremos para o casal. Será esta a espinha dorsal da relação, que maximizará a alegria quando as coisas estão bem e que sustentará ambos, pelos momentos mais difíceis. 

Será também o ponto de partida para uma relação completa e motivadora. No início de um namoro, entramos em modo "pavão". Mostramos qualidades, cores, feitos (reais e desejados) e banhamos a outra pessoa com atenção, carinho, desejo e com a melhor versão de nós, que conseguimos desempoeirar da gaveta. Passado este tempo de conquista, é frequente assentar numa rotina que não puxa por nós.

Contudo, a verdade é que esse "pavão" somos nós. 
Estar apaixonado, simplesmente, alimenta-nos a energia para o manter presente. 

Se, ao longo da relação, formos capazes de estar equilibrados e bem, mostrando que somos essa mesma pessoa, estaremos a manter o fascínio, o mesmo que levou o outro a apaixonar-se, mesmo sem saber como, nem porquê. Traremos para junto de quem gostamos, um ser com coisas novas, interessantes, que se apaixona a falar de tudos e de nadas e que se sente feliz. Por estar realizado, por se sentir amado, por se amar. Por ser completo sozinho e querer partilhar-se e deleitar-se com o outro. Ora estar em relação é assim, é darmos o melhor de nós, acreditar que a outra pessoa fará o mesmo e irmos navegando no dia-a-dia. No dia-a-dia e não no para sempre, esse conceito dura demais. Mesmo que lá cheguemos, será muito mais apetitoso a ser um dia de cada vez.

Quanto a estar em relação com o outro, costumo dizer que, lidar apenas connosco pode já de si ser um desafio bem duro. Viver só, dentro da nossa cabeça, pode já parecer um cenário de guerra. Mais ainda, escolhermos ter dois seres em interacção constante e regular, implicará lidar com ambos os lados lunares, com a mestria que nos for possível. Para lidar com estes momentos, ou melhor para diminuir estes episódios difíceis, convém perceber que a escalada representa aqui um papel importante. Por vezes, magoamos o outro, sem qualquer intenção ou noção, e o outro, em vez de ser claro quanto ao que o feriu, acaba por retaliar, agravando a situação. A comunicação e a assertividade devem ser presentes e em doses recomendáveis e respeitosas (aquelas discussões intermináveis e repetitivas são como reuniões onde todos chegam atrasados, mexem no telemóvel, não há foco, coloca-se os assuntos pessoais em dia e reagenda-se para outro dia os tópicos relevantes, sem qualquer resultado produtivo). Este tema, abordaremos futuramente. De momento, vejamos, como lidar com pausas estratégicas na relação? Simples assim:

Dedicar todo o tempo do mundo ao outro. 
Todo. De forma regular e moderadamente curta. 
Só que todo. O Rui Veloso avisou.

Quero, com isto, dizer que, se conseguirmos reservar 20 minutos por dia, para nos partilharmos com o outro e ser capaz de escutar activamente, com os olhos, a boca, as pontas dos dedos, os ouvidos, o coração e a atenção, é impossível que isso não fortaleça  a relação. Naturalmente, que não é obrigatório que sejam 20 minutos, assim como não é obrigatório que seja diário e assim como não deve sequer ser obrigatório. O que deve é haver um espaço criado voluntariamente, com prazer, para poder namorar, apenas. Embora este espaço deva ser aberto à comunicação intimista, não deve ser o momento de discutir, pelo menos não de forma grave. Deve ser um momento de calma, de paz, de pausa de tudo o resto, apenas para poder dedicar-se ao outro e sentir-se validado, compreendido, amado, cuidado. Este passo não eliminará os restantes problemas quotidianos ou até mesmo crises de relacionamento mas seguramente eliminará a sensação de solidão, de se sentir "abandonado", fortalecerá o vínculo e fará a outra pessoa cobrar menos, porque se sente apoiada e querida.

Desta forma, o ambiente relacional apenas poderá beneficiar deste truque. Salvaguardo que estas alturas têm de ser algo combinado, num momento em que ambos o desejem. Nem toda a gente tem a mesma inspiração ou vontade em iguais momentos do dia. Para alguns a manhã é um conjunto de stress e correria e para outros a chegada a casa, antes de qualquer outra coisa, exige poder vegetar um pouco, descomprimindo do dia. Assim, encontrem um espaço vosso, com a regularidade que vos aprouver, e, nesse momento, sem telefones ou estímulos externos, foquem-se apenas um no outro. Se esta actividade for feita respeitando ambos, é fácil compreender que os efeitos secundários serão próximos de nenhum. Se estão cépticos, experimentem adoptar esta estratégia e ver como corre. O pior que pode acontecer é ser como o Melhoral, nem faz bem, nem faz mal. O melhor que pode advir é uma relação mais proveitosa, próspera e atenciosa que além de permite e estimular espaço individual sem queixas, fortalece a dinâmica do casal. Soa bem, não?

Desta forma, vemos que não precisamos de ir a Paris ou sequer passear em hotéis de luxo, para manter vivo um vínculo saudável. Caso a disposição geral seja de maior intimidade, proximidade e carinho, tudo sairá melhorado, seja em Veneza ou Baguim do Monte. E se quer que o outro deixe de dizer "Não me ligas nenhuma", pela vossa saúde, ligue-lhe. Dê-lhe tempo de antena, curto, regular e amoroso. Diz o Priberam que saborear é provar lentamente com atenção e prazer. Ora quem é que não deseja saborear e ser saboreado por quem gosta? Deixo-vos na companhia de quem nos deu este conselho há muito, para ir criando o ambiente certo...

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