segunda-feira, 30 de julho de 2018

Entrar, sem cerimónia, nas cores alheias

Imaginem ter permissão especial para entrar nos muros privados de cada pessoa que se senta comigo e que, com coragem e dedicação, discorre sobre descrições do seu mundo, tentando encaixar sentimentos, emoções, momentos, abraços sentidos, histórias que já foram, desejos vindouros, acções pensadas ou lamentadas, beijos impetuosos, trabalhos duros e impossíveis, ócios perigosos ou escolhas intrépidas, ... O meu trabalho clínico é, indubitavelmente, um privilégio. Encaixar todas estas vidas dentro de uma pequena noz de hora. Conseguir distinguir o urgente do importante, seleccionar palavras certas e precisas, para que eu seja capaz de uma leitura organizada e completa de um quotidiano atribulado, cansado, e interrupto. 

É um desafio, conseguir estar segura de que a empatia, a escuta activa e a orientação necessárias estão na medida correcta, sem grande margem para erros ou vacilos. É humanamente muito valioso, poder obter o respeito de quem nos procura, na esperança de que resida em nós a habilidade decorosa e honesta de prestar o auxílio psicológico em falta, de modo competente e interessado. A troco destas competências e atenção, ser-se brindado com uma partilha real de história de vida, sucessos, medos, hesitações, necessidades de reorganização, anseio de novas perspectivas e de abordagens mais ou menos alcançadas. 

Não posso deixar de destacar que estar quieto 
é, imensas vezes, mais difícil do que agir: